Há 48 anos em João Câmara, monsenhor Luiz Lucena Dias se tornou um dos personagens mais importantes da cidade na fase "pós-tremores". Ele auxiliou na reconstrução do município e em uma obra ainda mais importante que devolver as casas à população: restabelecer a confiança de viver na região. "O abalo maior foi o abalo psicológico", avalia.
Hoje, aos 79 anos, monsenhor lembra que seus prognósticos se confirmaram e, menos de seis meses após os terremotos, grande parte da população que deixou a cidade retornou para as suas residências. "Os pesquisadores mesmos explicaram que se ocorressem novos sismos, os epicentros não seriam mais em João Câmara e o tremor de sábado (dia 2, próximo a Touros) é prova disso", aponta.
Ele defende que a cidade continue a manter os cuidados com as construções, sem "assombrar" as novas gerações, e reconhece que a vontade divina, no entender dos populares, foi a grande culpada pela tragédia. "Mas não foi castigo de Deus. O fato é que vivemos em uma área sujeita a abalos sísmicos e eles ocorrem no Brasil desde antes do descobrimento", ressalta.
Atual pároco emérito da cidade, o monsenhor guarda na lembrança aqueles meses de 1986. "O tremor de 30 de novembro foi muito brusco. Não ficou ninguém em casa, faltou energia, ficamos sem telefones. Um bloco de cerca de uma tonelada caiu da parte de trás da igreja, as torres ficaram soltas. Até o meio-dia seguinte, 12 mil pessoas já tinham ido embora. Nunca houve um êxodo assim."
Para o atual pároco, Edivan Araújo de Lucena, que mora há três anos em João Câmara, os tremores ainda são uma presença forte na vida da população. "Na segunda-feira de carnaval deste ano, muitos sentiram um novo tremor", cita. Hoje, dos quase 30 mil moradores, metade é de migrantes "pós-tremores", atraídos pelas oportunidades de emprego geradas na reconstrução da cidade.
No seu entender, não é aconselhável provocar suspense nas novas gerações com relação à possibilidade de novos sismos, contudo é fundamental passar a eles um pouco da experiência dos que viveram aqueles tempos difíceis. "É importante haver um resgate dessa história", afirma.
Um vento frio prenunciava tudo. Logo o estrondo começava a ser ouvido. Os animais se agitavam. Só então, a terra tremia. A descrição e a explicação dos abalos sísmicos por parte dos moradores da zona rural de João Câmara reúnem uma gama de referências religiosas, históricas e populares que mereceriam, por si só, um espaço maior na cultura do município e de todo o Rio Grande do Norte.
O agricultor José Silvino da Silva, 68 anos, é um exemplo disso. "Um engenheiro veio até aqui e disse que a terra ia afundar. Apontei para as nuvens e disse: se elas não caem, por que a terra vai cair?", relembra. Questionado se os tremores podem voltar, ele não titubeia: "Para Deus nada é custoso." Interrogado se os terremotos não seriam obra do diabo, também não se acanha: "Esse lá pode nada, Deus é que é santo véio!"
José Silvino deixou sua morada no Cravo do Tomás após os tremores, mas continuou morando em uma casa vizinha. "Vinha um vento frio, logo as telhas tavam tudo rangendo", recorda. As batatas que plantava saíram da terra duas polegadas e tudo teve de ser logo vendido. Hoje ele sabe que os jovens não entendem o que foi aquilo: "Se não viram, não gravaram no sentido." Silvino lembra até que tentaram lhe convencer que havia um "rachão" no subsolo, porém o agricultor tem outra explicação: "Os estudos do homem tão fraco, isso aqui é capaz é de ser petróleo", esclarece.
Depois dos tremores de 1986, a casa de José Cícero da Silva, de 71 anos, na comunidade de Samambaia, ficou resumida ao piso. "Um cabra que tá hoje com 15 anos não sabe o que é isso. Eu mesmo tinha feito uma leiroada (sulcos na terra para receber as sementes) de mais de um palmo, mas depois do abalo aplanou tudo. Quando conto, muita gente não acredita", revela. Sua casa ficou pensa e foi derrubada pelo próprio agricultor.
Ele se mudou para barracas próximo à escola da comunidade e quando foi ao centro da cidade teve um espanto. "Na rua você não via um pé de pessoa. Na feira (até então considerada uma das maiores do estado) só tinha uma vendendo e a fila era imensa." Duas décadas depois, o temor do agricultor ainda não findou por completo e Cícero revela que ainda hoje, "foi, não foi", ocorre um novo tremor.
10/09/2006 - Tribuna do Norte - Wagner Lopes - Repórter
O que os olhos não vêem, o coração não sente. O ditado popular vale para explicar, mas não justificar a indiferença da população jovem do município em relação aos acontecimentos de 20 anos atrás. O fato das casas rachadas (1.500 no total, das quais 5 desabaram e 200 foram condenadas) terem dado lugar a novas edificações tem causado indiferença sobre o assunto, sentimento admitido pelos próprios jovens.
"Apesar da gente não se interessar, deveriam nos contar tudo sobre aquilo, afinal faz parte do passado de nossa cidade", reconhece a estudante Nayara Luana Leite, de 12 anos. A consciência da garota é um sinal de que o desinteresse só persiste por falta de iniciativas que atraiam os jovens a se informarem melhor. Prova disso é que o pouco que sabem dos fatos, eles guardam com curiosidade. "Meus pais contam que estavam em uma festa e tudo se apagou, casas caíram e muita gente foi embora", descreve Nayara.
Tales Hudson de Pereira, 13 anos, decorou a magnitude do maior tremor (5,3), porém diz que além de alguns trabalhos escolares, pouco teve contato com os fatos ocorridos em 1986. "A turma já se acostumou com os tremores (além do ocorrido no último dia 2, próximo a Touros, alguns moradores sentiram um abalo na segunda-feira de carnaval)", afirma.
Isabela da Silva Pereira, 14 anos, soube que sua família foi para Macaíba, após os primeiros sismos, porém sequer ouviu falar de gente dormindo nas ruas, ou casas caindo. Enquanto Luana Cristine da Silva, 17 anos, diz que é sempre citada por amigos de outras regiões como vinda da "cidade dos abalos", mas afirma que poucos explicam aos mais novos a influência desses terremotos sobre a vida da cidade. "Deveria haver mais informação, pois foi um acontecimento marcante", considera.
FONTE: 10/09/2006 - Tribuna do Norte - Wagner Lopes - Repórter
Os professores de História costumam explicar aos seus alunos que conhecer o passado é fundamental para entender o presente e se preparar para o futuro. No município de João Câmara, distante 80 km de Natal, essa lição parece não estar sendo bem aprendida. Há 20 anos, a cidade foi atingida pelo então considerado "maior terremoto do Nordeste." No entanto, os fatos registrados de agosto a dezembro de 1986, quando centenas de sismos ocorreram na região, sobrevivem hoje quase que exclusivamente na memória de quem habitou nesse período a "terra dos abalos".
"As novas gerações de João Câmara ouvem falar dos terremotos como se tivessem acontecido lá longe, na Ásia", constata o ex-prefeito José Ribamar Leite, que administrava a cidade quando dos tremores. Ele lamenta a falta de atenção com as novas construções, a pouca importância dada à preservação dessa história recente e os baixos investimentos na prevenção de novas catástrofes.
Os primeiros terremotos de grande magnitude (chegando a 4,6 graus na escala Richter) foram registrados em agosto daquele ano, o maior de todos (calculado em 5,3 e depois reavaliado em 5,1) se deu em 30 de novembro. Porém, no entender do ex-prefeito, eles não despertaram atenção por muito tempo. "O impacto foi imenso, mas aos poucos foi sendo relegado e deixou de fazer parte da vida da cidade, como se não pudesse ocorrer novamente. Só que vivemos em uma área sujeita a isso", ressalta.
José Ribamar afirma que, após uma precaução inicial com a estrutura das novas casas, essa atenção deixou de existir há alguns anos. "Residências e armazéns estão sendo erguidos sem estrutura para agüentar abalos", destaca. Ele defende maior fiscalização dos órgãos técnicos, como o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura. Outro ponto que o preocupa é a não adoção de medidas, por parte da Cosern, para blindar os fios de alta tensão que passam até mesmo sobre a feira da cidade. "Eles alegam que, em caso de problema, o relé desliga a energia automaticamente. Só que o instrumento não é infalível", adverte.
Atualmente vereador, Ribamar defende que os sismos sejam transformados em assunto escolar, podendo ser aproveitados nas disciplinas de Geografia, História e Física. "Hoje a educação segue tratando de generalidades, quando aqui teríamos ótimos subsídios para o aprendizado das crianças", aponta. Ele questiona ainda como, 20 anos depois, a região não foi dotada de nenhum sistema capaz de prever essas catástrofes, quando em 1986 um sismólogo grego (Kostantine Nimikos) já apresentou uma tecnologia nesse sentido.
O ex-prefeito critica a falta de investimentos em pesquisas e o fim da emissão dos boletins sismológicos semanais, da UFRN. "Não é preciso apavorar a população, mas seria bom esclarecer de que não estamos imunes." Ribamar enfatiza ainda que, das lonas distribuídas na época, nenhuma foi preservada pela população e a estrutura da Defesa Civil no estado, avalia, é insuficiente até para atender de forma ideal vítimas de catástrofes regulares, como a seca e as inundações. "Algumas pessoas me criticam que só falo em abalos, mas me preocupo porque vivi o momento e hoje sinto que, de lição, restou muito pouco."
10/09/2006 - Tribuna do Norte - Wagner Lopes - Repórter
A seqüência de tremores de terra que atingiu este município, em 1986, foi a mais espetacular, a melhor documentada e estudada atividade sísmica já observada no Brasil. O primeiro evento, sentido pelos moradores e por parte da população de Natal, foi registrado em Brasília, em 21/08/86 e alcançou magnitude 4.3.
No mês seguinte (3 e 5/09/86), dois eventos com magnitudes 4.3 e 4.4, também sentidos, provocaram pequenos danos e foram acompanhados por várias outras réplicas. Nas semanas posteriores a sismicidade decresceu, mas, no dia 30/11/86, as 05h 19min 48 s (H.Local), aconteceu o principal tremor de toda a série, com magnitude 5.1.
Ele foi seguido por centenas de réplicas, quatro delas com magnitude maior ou igual a 4.0 . Danos significativos ocorreram tanto na área urbana como na rural fazendo com que grande parte da população abandonasse a cidade.
Ações da Secretaria de Defesa Civil, além de entidades estaduais e federais, ajudaram a minimizar os problemas dos habitantes locais. Os sismos destruíram ou danificaram 4.000 casas e 500 delas foram reconstruídas adotando certas normas anti-sísmicas, desenvolvidas pelo Batalhão de Engenharia do Exército.
Os grupos de sismologia da UnB, da USP e da UFRGN desdobraram esforços para documentar, estudar e mesmo orientar as autoridades diante da constância dos abalos sísmicos. O Presidente da República e vários outros ministros visitaram a área atingida.
João Câmara é um exemplo de que o Brasil não está imune aos terremotos. Eventualmente, atividades similares poderão ocorrer em outras cidades brasileiras.
O epicentro do grande temor de João Câmara, ocorrido às 3h20 da madrugada do dia 30 de novembro de 1986, foi nas proximidades das comunidades de Samabaia e Matão, na zona rural do município. Porém, o desespero tomou conta também da sede da cidade, onde ocorria uma festa no clube ACDB. “Estava lá, quem tocava era o grupo Terríveis e todos saíram correndo", recorda o então vereador Osório Avelino, hoje com 53 anos de idade.
Ele também se preocupa com a forma como os abalos de 1986 vêm sendo esquecidos. Osório participou da equipe da Defesa Civil responsável por ajudar a população, distribuir lonas e mantimentos, mas avalia: “Aprendemos na época os caminhos de como enfrentar um problema desses, porém não nos preparamos para o caso dele se repetir."
O ex-secretário de Obras de João Câmara, Agostinho Sebastião de Souza, também se encontrava na festa e lembra do caos criado pelo abalo. A maioria da população deixou a cidade no dia seguinte (parte já havia saído após os tremores de agosto) e a praça do Reizinho, em frente à igreja matriz, se transformou em um verdadeiro campo de refugiados, onde os que ficaram dormiam sob barracas de lonas.
Para a aposentada Francisca Torquato, 74 anos, a catástrofe não foi por acaso e teve motivações divinas. “Outra já era até para ter vindo, porque as pessoas não têm mais respeito por religião, as mulheres andam quase despidas", afirma. Ela lembra da passagem de Frei Damião pela cidade, em setembro de 1986, e diz que a partir daí os tremores cessaram. Depois, os moradores não respeitaram mais seus ensinamentos e acabou ocorrendo o grande abalo, explicado por ela em uma mistura de festa da ACDB, Sodoma e Gomorra e a arca de Noé.
“Fui para Natal na época, mas não vendi minha casa. Muita gente vendeu e se arrependeu porque depois a cidade voltou muito melhor. Hoje, não saio de meu canto por nada, mas sei que pode acontecer de novo, porque o povo de Baixa Verde (antigo nome do município) está precisando se aquietar", conclui.
Também morador da cidade, o atual chefe de gabinete da Prefeitura, Luís Gameleira, reforça o quanto a catástrofe amedrontou a população. “Foi um impacto terrível. De noite, ninguém conseguia dormir, era todo mundo no meio da rua. Quando a terra tremia, não tinha essa de corajoso, todos corriam. Afeta o emocional", analisa. Para ele, é preciso não deixar essa lembrança morrer. “Quem nasceu depois, não tem a noção do que é um abalo sísmico."
matéria publicada na Tribuna do Norte em 10/09/2006 - Repórter Wagner Lopes
Quando o seu Circo faliu, o macaco ficou desempregado. Passou alguns dias na sargeta e depois de um furto foi obrigado a cumprir medidas socioeducativas no Blog.
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Depois de perder o emprego na Casa Branca, aceitou nosso convite e agora trabalha para o Blog.
Bill - O Estagiário
Tudo que acontece de errado no Blog tem o dedo dele. Aceitou trabalhar sem carga horária defidida e diz que um dia será dono da maior empresa de computação do mundo. Apenas um cara utópico.
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Escolhida por muitos a intelectual do ano, foi convidada pelo Blog para comentar as novidades do mundo (obscuro) da música e da cultura. Ela terá muito trabalho.
Dunga - Comentarista Esportivo
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O prêmio será o livro “O Lobo da Estepe” de Herman Hesse.
SINOPSE
Hermínia para o Harry:
"Você, Harry, sempre foi um artista e um pensador, um homem cheio de fé e de alegria, sempre no encalço do grande e do eterno, nunca se contentando com o bonito e o mesquinho. Mas quanto mais despertado pela vida e conduzido para dentro de si mesmo, tanto maior se tornou sua necessidade, tanto mais fundo mergulhou no sofrimento, na timidez, no desespero; mergulhou até o pescoço, e tudo o que no passado conheceu, amou e venerou como belo e santo, toda a sua fé de então nos homens e em nosso elevado destino, nada pode ajudá-lo, tudo perdeu o valor e se fez em pedaços. Sua fé não encontrou mais ar que respirasse. E a morte por asfixia é uma morte muito dura. Não é verdade, Harry? Não é esse o seu destino? [...] Você trazia no íntimo uma imagem da vida, uma fé, uma exigência; estava disposto a feitos, a sofrimentos e sacrifícios, e logo aos poucos notou que o mundo não lhe pedia nenhuma ação, nenhum sacrifício nem algo semelhante; que a vida não é nenhum poema épico, com rasgos de heróis e coisas parecidas, mas um salão burguês, no qual se vive inteiramente feliz com a comida e a bebida, o café e o tricô, o jogo de cartas e a música de rádio. E quem aspira a outra coisa e traz em si o heróico e o belo, veneração pelos grandes poetas ou a veneração pelos santos, não passa de um louco ou de um Quixote".